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sexta-feira, 27 de maio de 2016

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Entrevista no "Todo Seu"

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O ROUXINOL E A ROSA...

“Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas”, exclamou o jovem Estudante, “mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha.”
Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.
“Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!”, exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. “Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz.”
“Finalmente, eis um que ama de verdade”, disse o Rouxinol. “Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca.”
“Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe”, murmurou o jovem Estudante, “e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado.”
“Sim, ele ama de verdade”, disse o Rouxinol. “Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro”.
“Os músicos no balcão”, disse o jovem Estudante, “tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar.” E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
“Por que chora ele?”, indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.
“Sim, por quê?”, perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.
“Sim, por quê?”, sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.
“Ele chora por uma rosa vermelha”, disse o Rouxinol.
“Uma rosa vermelha?”, exclamaram todos. “Mas que ridículo!” E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.
Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.
De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.
No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.
“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti”.
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
“Minhas rosas são brancas”, respondeu ela, “tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres.”
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.
“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti.”
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
“Minhas rosas são amarelas”, respondeu ela, “amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres.”
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.
“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti.”
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
“Minhas rosas são vermelhas”, respondeu ela, “vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano.”
“Uma única rosa vermelha é tudo que quero”, exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?”
“Existe uma maneira”, respondeu a Roseira, “mas é tão terrível que não ouso te contar.”
“Conta-me”, disse o Rouxinol. “Não tenho medo.”
“Se queres uma rosa vermelha”, disse a Roseira, “tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu.”
“A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha”, exclamou o Rouxinol, “e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?”
Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.
O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.
“Regozija-te”, exclamou o Rouxinol, “regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.
O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.
“Canta uma última canção para mim”, sussurrou ele; “vou sentir-me muito solitário depois que tu partires.”
Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.
Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.
“Forma ele tem”, disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, “isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática.” E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.
E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.
Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio – pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d’ água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.
Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, “senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.”
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.
E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.
E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. “Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, “senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.”
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.
E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.
Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.
Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles leva ram sua mensagem até o mar.
“Olha, olha!”, exclamou a Roseira, “a rosa está pronta.” Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
“Ora, mas que sorte extraordinária!”, exclamou. “Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim.” E, abaixando-se, colheu-a.
Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.
“Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha”, disse o Estudante. “Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo.”
Porém a moça franziu a testa.
“Creio que não vai combinar com meu vestido”, respondeu ela; “e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores.”
“Ora, mas és mesmo uma ingrata”, disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.
“Ingrata!”, exclamou a moça. “Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro.” E, levantando-se, entrou em casa.
“Que coisa mais tola é o Amor!”, disse o Estudante enquanto se afastava. “É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica.”
Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.
…………………………………………
Texto publicado em “O rouxinol e a rosa” (The nightingale and the Rose – 1888), foi extraído do livro “Contos de amor do século XIX”, Ed. Cia. das Letras – São Paulo – 2007, pág. 551, organização de Alberto Manguel, tradução de Paulo Henrique Britto.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

FRANGO CORDON BLEU - Passeio por Montparnasse


Um dia você entende que o tempo não é inimigo. E que ele é o nosso maior mestre.
Que tudo vem na hora que deve vir. Que não adianta espernear nem se esconder da vida.
Que a fuga não é a melhor saída. E que no fim das contas a gente sempre acaba agradecendo tudo que passou. Porque o tempo (ah, o tempo!) está sempre ao nosso lado para nos mostrar o que realmente vale a pena.


Clarissa Corrêa
E foi tão corpo que foi puro espírito". 
A loucura é vizinha da mais cruel sensatez.
Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.
"Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical"
"Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser então"
"Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma..."
"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."
"Fiquei com vontade de chorar mas felizmente não chorei, porque quando choro fico tão consolada..."
"Por enquanto, estou inventando a tua presença."
" Minha saudade anda assim espalhada, apertada, sufocada em pequenos espaços geográficos onde pedaços do meu coração residem
"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. "
"Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede. Sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações."


Clarice Lispector


Eis a sublime estupidez do mundo: quando nossa fortuna está abalada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres;
como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por forçada obediência a determinações dos planetas;
como se toda a perversidade que há em nós fosse pura instigação divina.
E a admirável desculpa do homem devasso – responsabilizar uma estrela por sua devassidão.

William Shakespeare, Rei Lear
A capacidade de estar sozinho é a capacidade de amar. Isso pode parecer paradoxal, mas não é. Essa é uma verdade existencial: somente aquelas pessoas que são capazes de estar sozinhos são capazes de amar, de compartilhar, de ir profundamente ao cuidado da outra pessoa, sem reduzir o outro a uma coisa e sem se tornar viciado ao outro. Eles permitem que o outro seja absolutamente livre, porque eles sabem que se o outro partir, eles serão felizes como são agora. A felicidade deles não pode ser tirada pelo outro, porque não foi dada pelo outro.”

Osho da Obra “Being in love”
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