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quinta-feira, 29 de abril de 2010

UM RECADO DE DEUS...


Aqueles que dispõem da visão perfeita, com certeza não podem avaliar a preciosidade que é ter noção de espaço, distâncias, cores - tudo o que os olhos oferecem todos os dias.
Por isso, ouvir o depoimento de uma senhora novaiorquina, cega, que mora sozinha, é oportuno.

Durante todo o inverno ela ficou dentro de casa a maior parte do tempo.
Naquele dia de final de abril, a friagem amenizou e ela sentiu o perfume forte e estimulante da primavera.
Seus ouvidos escutaram o canto insistente de um passarinho do lado de fora da janela.
É como se a pequena ave a estivesse convidando a sair de casa.
Preparou-se, tomou a bengala e saiu.
Voltou o rosto para o sol, deu-lhe um sorriso de boas-vindas, agradecida pelo seu calor e a promessa do verão.
Caminhando tranqüila pela rua sem saída, escutou a voz da vizinha a lhe perguntar se não desejava uma carona.
"Não", respondeu ela.
As minhas pernas descansaram o inverno inteiro.
As juntas estão precisando ser lubrificadas e um passeio a pé me fará bem.
Ao chegar na esquina ela esperou, como era seu costume, que alguém se aproximasse e permitisse que ela o acompanhasse, quando o sinal ficasse verde.
Os segundos pareceram uma eternidade.
E ninguém aparecia.
Nenhuma oferta de ajuda.
Ela podia ouvir muito bem o ruído nervoso dos carros passando com rapidez, como se tivessem que conduzir os seus ocupantes a algum lugar, muito, muito depressa.
Por um momento se sentiu só, desprotegida.
Resolveu cantarolar uma melodia.
Do fundo da memória, recordou-se de uma canção de boas-vindas à primavera, que havia aprendido na escola quando era criança.
De repente, ela ouviu uma voz masculina forte e bem modulada.
"Você me parece um ser humano muito alegre.
Posso ter o prazer de sua companhia para atravessar a rua?"
Ela fez que sim com a cabeça, sorriu e murmurou ao mesmo tempo um "sim".
Delicadamente, ele segurou o braço dela.
Enquanto atravessavam devagar, conversaram sobre o tempo e como era bom, afinal, estar vivo num dia daqueles.
Como andavam no mesmo passo, era difícil se saber quem era o guia e quem era o guiado.
Mal haviam chegado ao outro lado da rua, ouviram as buzinas impacientes dos automóveis.
Devia ser a mudança de sinal.
Ela se voltou para o cavalheiro, abriu a boca para agradecer pela ajuda e pela companhia.
Antes que pudesse dizer uma palavra, ele já estava falando:
"Não sei se você percebe como é gratificante encontrar uma pessoa tão bem disposta para acompanhar um cego como eu, na travessia de uma rua."

Às vezes, quando nos sentimos sós no universo, Deus nos manda uma imagem semelhante para diminuir nossa sensação de isolamento e disparidade.
É sempre reconfortante conseguir perceber que, sejam quais forem as dificuldades e limitações que estejamos atravessando, sobre a terra existem outras tantas dezenas ou centenas de criaturas que, como nós, passam por situações semelhantes.
E, o mais importante, lutam e vencem.
É a mensagem viva de bom ânimo da divindade para as nossas próprias vidas.

Equipe de Redação do Momento Espírita, baseado no livro Pequenos Milagres - Yitta Halberstam e Judith leventhal, ed. Sextante, págs. 36/37

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