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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A FLOR QUE AMAVA O MAR...

Havia uma flor à beira de um rio que se apaixonou pelo mar.


Talvez por ouvir o sussurro das águas do rio, que corriam ansiosas para desembocarem na sua imensidão, passou a amar profundamente aquele ser conhecido apenas pelo ouvir falar do vento e dos pássaros.

Apaixonou-se por alguém que nunca viu, mas sempre quis estar junto; de longe ouvia o canto ritmado das ondas e imaginava-se naqueles braços, numa dança contínua da qual só os que têm em si muito amor sabem o ir e vir.

Sonhava com o dia em que pudesse estar envolvida por aquele tão admirado e imenso ser.

E sentiria suas pétalas acarinhadas por alguém que, certamente, lhe saberia a alma de flor delicada.

Tanto sonhou e pediu que, um pássaro sensibilizado, mesmo avisando-lhe do risco que corria, atendeu seu pedido de cortar-lhe a haste.

Seguindo o rio e deixando-se levar pela correnteza, iria ao encontro de seu querido e a ele juntar-se-ia para sempre.

Caindo no rio, sentiu de imediato seu corpo gelar naquelas águas rudes e fortes que a arrastavam rapidamente.

A princípio, gostou daquela velocidade com que ia ao seu destino.

Depois sentiu a primeira mordida de um peixe que lhe amputou parte de uma pétala; começou, então, seu caminho de sofrimento.

Troncos no meio do caminho insistiam em lhe obstruir a passagem e, cega, sendo levada pela força da água, batia contra pedras que iam lhe dilacerando e tirando sua beleza de flor.

Enormes cachoeiras traziam quedas violentas. Medo vencido por uma determinação de quem sabe o que quer.

Mesmo quase desmaiada e toda machucada, levava consigo o alento de ir encontrar com seu amor.

Todas as dores do mundo não se comparavam à felicidade de realizar o seu sonho.

Tudo vale a pena quando se ama.

Até que, muitos dias depois, totalmente deformada e quase inconsciente, viu chegado o momento com o qual sonhou.

As águas do rio encontravam-se com o mar com tanto ímpeto que, no encontro, foi arremessada para cima.

Naquele exato instante, olhou para o céu e agradeceu a Deus por haver chegado a quem tanto amou.

E seus pedaços boiaram inertes sobre aquelas águas que, minutos depois, sequer lembrariam daquela pequenina criatura – um dia tão linda – Flor.

Poucos, além dos pássaros e do vento, souberam da flor, mas ela realizou seu sonho. Conheceu o mar!

Na vida, não podemos reclamar dos caminhos que escolhemos.
Qualquer caminho é uma opção nossa.
Até morrer de amor.

Pensando nisso, entre duas lágrimas com gosto de sal e o esboço de um sorriso irônico, de repente, me dei conta de uma coisa: Eu conheci o mar!

Paulo Moreira

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