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quinta-feira, 6 de março de 2014

NOS TRILHOS DO TEMPO...

Outro dia, uma amiga se queixou ao telefone: “Tenho 27 anos e descobri que, até agora, tenho me alimentado de migalhas”. Falei qualquer coisa banal & consoladora, como “a vida é assim mesmo, paciência” – e desliguei. Só não desliguei a cabeça: a frase ficou dias dando voltas dentro dela, Até que, não lembro bem como, de algum lugar de dentro de mim veio a resposta que não cheguei a dar à minha amiga: “Mas será que isso que você chama de migalhas não será, afinal, o próprio pão?”
Fiquei todo enredado num pensamento mais ou menos assim: aos 15anos, você espera um bolo coberto de chocolate, recheado de frutas; aos 25, você até dispensa o recheio de frutas, mas ainda espera a cobertura de chocolate; aos 35 – ah, um pão doce mesmo serve; aos 45, pode ser pão comum, desses de água e sal, desde que fresquinho; aos 55, o mesmo pão, só que não tem muito importância se dor amanhecido – e assim por diante, até chegarmos às migalhas. Que, se você tiver uma boa cabeça, pode receber como se fosse uma daquelas tortas Martha Rocha (uma fatia para quem lembrar das tortas Martha Rocha, famosas nos anos 50).

A passagem do tempo traz humildade e reduz o apetite? Não afirmo nada, só pergunto, porque não tenho certeza. Talvez por ter andado lendo os dois romances que Doris Lessing esecreveu sob o pseudônimo de Jane Somers (O Diário de Uma Boa Vizinha e Se os Velhos Pudessem), andei pensando também na velhice. Neste jornal não se pode escrever palavrão – mas você já percebeu que muitos jovem dizem velha como se dissessem, desculpem, mulher de vida airada ou ladra? Como se a velhice fosse um crime e uma vergonha.

Os dias passaram, eu pensei em Rita Lee. Não ouvi o disco novo de Rita, não tenho nada a dizer sobre ele. Mas Rita ficou furiosa com uma crítica escrita sobre o disco e, ao que parece, especialmente com uma maldadezinha sobre sua suposta “menopausa criativa”. Fica assim: quem acusa coloca-se na posição de “jovem-por-dentro-de tudo”. Acaba virando um joguinho meio lamentável de bom & mau, mocinho & bandido,inocente & culpado. Por trás de tudo, a suprema ofensa: ser chamado de VELHO.
Então morre Rita Hayworth (maravilhosa Rita, sem a qual Marilyn Monroe talvez não tivesse existido), há anos esquecida. Em todos os arquivos rebuscam-se fotos e trechos de filmes da flamejante Gilda – e fotos da mulher esplêndida de 20, 25 anos, são colocadas lado a lado de fotos da velha horrenda de 60, doente e decadente. O subtexto é: o jovem é belo, o velho é feio. O jovem está perto da vida, o velho está perto da morte. E a velhice, como a morte, é feia e suja. Será?

Enquanto isso, a vida de cada um corre sobre os trilhos do tempo, separadamente mas em direção a um destino igual para todos, e no mesmo ritmo implacável daquele poema de Manuel Bandeira:café-com-pão, café-com-pão. Penso nos velhinhos como Mário Quintana, cheios do poder discreto de conseguir contemplar de longe a juvenil palhaçada nossa de cada dia, à espera desses resplandescentes bolos cobertos de chocolate, recheados de frutas. E que só existem no sonho. No real, são as migalhas.

Rita, a Hayworth, gira no ar sua luva negra e canta: “Put the blame on mame, boy” – porque ela não preparou você para a velhice, eu acrescento. Seguro devagar o novo livro de Adélia Prado, O Pelicano, leio e releio um poema chamado Objeto de Amor (que não posso transcrever aqui: este jornal não publica palavrão), e acho que eu compreendo quando ela diz: “Quanto a mim dou graças/ pelo que agora sei/ e, mais que perdoo, eu amo”. Foi Adélia, mulher do povo, quem afirnou também num poema mais antigo: “Quarenta anos: não quero a faca nem o queijo/ quero a fome”. Eu também: bem-vindas as migalhas que, se Deus quiser, virão.

Caio Fernando Abreu - OESP - Caderno 2 - 1987

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